Como o nosso cérebro aprende
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A aprendizagem é um dos processos mais fascinantes da experiência humana. Ela define como interpretamos o mundo, como nos adaptamos, como evoluímos e, principalmente, como nos tornamos quem somos. Embora naturalmente complexo, o cérebro possui mecanismos surpreendentemente eficientes que tornam possível aprender algo novo todos os dias — mesmo quando não percebemos.
Mas como exatamente o nosso cérebro aprende?
Neste artigo atualizado, você vai entender como o cérebro recebe, organiza e consolida informações; por que a plasticidade cerebral é a chave da transformação; como ambientes, emoções e motivação influenciam sua capacidade de aprender; e também vai encontrar um FAQ no final, com respostas diretas para as dúvidas mais comuns sobre o processo de aprendizagem.
“O cérebro aprende reforçando conexões neurais através da repetição, emoção e experiência.”
Estrutura e funcionamento do cérebro
O cérebro é composto por bilhões de neurônios que formam redes complexas responsáveis por tudo o que percebemos, sentimos, aprendemos e fazemos. É por meio dos neurônios e das sinapses que toda a aprendizagem acontece.
Primeiramente, os neurônios são as células nervosas que compõem o sistema nervoso, incluindo o cérebro. Eles são responsáveis por transmitir informações por meio de sinais elétricos e químicos. Cada neurônio é composto por um corpo celular, dendritos (que recebem sinais de outros neurônios) e um axônio (que transmite sinais para outros neurônios).
Já as sinapses são as conexões entre os neurônios, onde ocorre a transmissão de informações. Assim, quando um neurônio libera neurotransmissores na sinapse, essas substâncias químicas ativam os receptores no neurônio vizinho, desencadeando um novo impulso elétrico. Essa comunicação entre neurônios é essencial para o funcionamento do cérebro e para o processo de aprendizagem.
Quando essa conexão é usada repetidamente, ela se fortalece. Por outro lado, quando não é utilizada, tende a enfraquecer. A esse mecanismo chamamos de “use-it or lose-it” — use ou perca. Esse processo contínuo é o fundamento de tudo o que vem a seguir.
“Aprender é fortalecer sinapses; esquecer é deixá-las enfraquecer.”
Plasticidade cerebral: a capacidade de aprendizado do cérebro
Plasticidade sináptica
A plasticidade cerebral refere-se à capacidade do cérebro de mudar e se adaptar ao longo da vida em resposta a experiências e estímulos do ambiente. A plasticidade sináptica, especificamente, envolve a capacidade das sinapses de se fortalecerem ou enfraquecerem com base na atividade neuronal. Isso significa que podemos reforçar as conexões entre neurônios ou enfraquecê-las com base na frequência e na intensidade da atividade neural, o que é essencial para o aprendizado e a memória.
Neurogênese: formação de novos neurônios
Além da plasticidade sináptica, o cérebro também possui a capacidade de gerar neurônios em uma região específica chamada hipocampo, através de um processo chamado neurogênese. Desse modo, esses novos neurônios podem integrar-se às redes neurais existentes, desempenhando um papel importante na aprendizagem e na formação de novas memórias.
“A neuroplasticidade permite que o cérebro mude física e funcionalmente a partir da experiência.”
A jornada do aprendizado
Recepção da Informação: a porta de entrada do conhecimento
Tudo começa com os nossos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Através deles, captamos informações do mundo ao nosso redor, que são então transformadas em sinais elétricos e enviados ao cérebro.
No cérebro, esses sinais são recebidos por diferentes áreas, cada uma especializada em processar um tipo específico de informação. Nesse momento, os neurônios, células básicas do sistema nervoso, entram em cena, transmitindo os sinais de um neurônio para outro, como em um revezamento eletroquímico.
Os olhos capturam a luz e a transformam em imagens, os ouvidos convertem sons em vibrações, o nariz detecta odores, a língua saboreia os alimentos e a pele sente o toque. Assim, cada um dos sentidos contribui para a construção da nossa percepção do mundo.
No cérebro, processamos esses estímulos sensoriais em diferentes áreas. A área visual, por exemplo, está localizada no lobo occipital, enquanto a área auditiva se encontra no lobo temporal.
Armazenamento: guardando tesouros de conhecimento
As informações que captamos e processamos precisam ser armazenadas para que possamos usá-las posteriormente. A memória é a capacidade de armazenar e recuperar informações.
A memória de curto prazo (MCP) armazena informações por um período breve, geralmente de alguns segundos a minutos. Assim, ela é útil para lembrarmos de informações que precisamos usar imediatamente, como um número de telefone ou um endereço.
Por outro lado, a memória de longo prazo (MLP) armazena informações por um período mais extenso, podendo durar anos ou até mesmo a vida toda. Ela é essencial para o aprendizado, pois nos permite armazenar conhecimentos e habilidades que podemos usar posteriormente.
Consolidação da memória: fortalecendo as conexões
A consolidação da memória é o processo pelo qual as informações são transferidas da memória de curto prazo para a memória de longo prazo. Em síntese, esse processo envolve a repetição e a prática, que ajudam a fortalecer as conexões entre os neurônios.
As informações armazenadas na memória não são apenas guardadas passivamente. Elas são constantemente analisadas e interpretadas, o que nos permite dar-lhes significado.
Dessa forma, ao analisarmos as informações, buscamos por padrões e regularidades. Essa capacidade é fundamental para a compreensão, pois nos permite identificar relações entre diferentes elementos.
Ou seja, repetição e significado são fundamentais para transformar algo da MCP para a MLP.
Categorização: organizando o mundo em caixas
Após identificarmos os padrões, categorizamos as informações em grupos. Isso nos ajuda a organizar o conhecimento e a torná-lo mais acessível. O significado é a atribuição de sentido às informações. Portanto, é a etapa final do processo de aprendizagem, e é quando realmente compreendemos o que estamos aprendendo.
“O que transforma informação em aprendizado é a repetição combinada com significado.”
Mecanismos de aprendizado
Condicionamento clássico
O condicionamento clássico é um tipo de aprendizado associativo em que um estímulo neutro se torna associado a um estímulo que naturalmente evoca uma resposta. O exemplo clássico desse tipo de aprendizado é o experimento do famoso fisiologista Ivan Pavlov com cães, onde ele associou o som de um sino à apresentação de comida, levando os cães a salivarem simplesmente ao ouvirem o sino, mesmo na ausência de comida.
Condicionamento operante
Diferentemente do condicionamento clássico, o condicionamento operante envolve a associação entre um comportamento voluntário e suas consequências. Dessa forma, quando um comportamento é seguido por uma consequência desejável, é mais provável que esse comportamento seja repetido no futuro.
Por outro lado, quando um comportamento é seguido por uma consequência indesejável, é menos provável que ele seja repetido. A teoria do reforço e punição de B.F. Skinner explorou esse tipo de aprendizado.
Aprendizado associativo
O aprendizado associativo é um processo pelo qual um organismo faz uma conexão entre eventos ou estímulos do ambiente. Então, esse tipo de aprendizado pode envolver tanto o condicionamento clássico quanto o operante e desempenha um papel fundamental em muitos aspectos da vida cotidiana, desde a formação de hábitos até a aprendizagem de novas habilidades.
Fatores que influenciam o processo de aprendizagem
Ambiente
O ambiente em que uma pessoa vive desempenha um papel crucial no processo de aprendizagem. Dessa forma, um ambiente rico em estímulos e oportunidades de aprendizagem pode promover o desenvolvimento cognitivo e facilitar a aquisição de novos conhecimentos e habilidades.
Emoções
As emoções também desempenham um papel importante no processo de aprendizagem. Estudos mostram que emoções positivas podem facilitar a aprendizagem, aumentando a motivação e a atenção, enquanto emoções negativas podem interferir na capacidade de aprendizado, desviando a atenção e prejudicando a memória.
“A emoção funciona como a cola da memória.”
Motivação
A motivação desempenha um papel crucial na determinação do esforço e da persistência em atividades de aprendizagem. Assim, quando uma pessoa está motivada para alcançar um objetivo específico, ela tende a se dedicar mais e a superar obstáculos com determinação, o que pode resultar em um melhor desempenho acadêmico e profissional.
Sono e descanso
Durante o sono, o cérebro processa e organiza as informações adquiridas ao longo do dia, fortalecendo as conexões neurais relevantes e descartando as informações irrelevantes. Desse modo, o sono desempenha um papel fundamental na consolidação da aprendizagem e na formação de memórias.
Portanto, garantir uma boa qualidade de sono é essencial para otimizar o processo de aprendizagem.
Dicas para melhorar o aprendizado
Alimentação balanceada
Uma alimentação balanceada e rica em nutrientes essenciais, como vitaminas, minerais e ácidos graxos ômega-3, pode fornecer ao cérebro os substratos necessários para um bom funcionamento cognitivo. Além disso, manter-se hidratado e evitar o consumo excessivo de alimentos processados e ricos em açúcar pode ajudar a manter o cérebro saudável e alerta.
Exercícios físicos
Estudos mostram que o exercício aeróbico pode aumentar a produção de substâncias químicas no cérebro que promovem o crescimento de novos neurônios e melhoram a função cognitiva, incluindo a memória e a aprendizagem. Consequentemente, a prática regular de exercícios físicos não só promove a saúde do corpo, mas também beneficia o cérebro.
Exercícios mentais e desafios cognitivos
Assim como o corpo precisa de exercícios físicos para se manter saudável, o cérebro também se beneficia de exercícios mentais e desafios cognitivos. Assim, atividades como quebra-cabeças, jogos de memória, aprendizado de novas habilidades e leitura estimulam o cérebro, fortalecendo as conexões neurais e promovendo a plasticidade cerebral.
Técnicas de estudo eficazes
Por fim, adotar técnicas de estudo eficazes pode maximizar o processo de aprendizagem. Isso inclui a elaboração de um plano de estudo, a prática de revisão regular, o uso de técnicas de memorização como mnemônicos e a aplicação de estratégias de organização e síntese de informações.
Resumindo…
O processo de aprendizagem é uma função complexa e fascinante do cérebro humano, envolvendo uma interação intricada entre neurônios, sinapses, plasticidade cerebral e uma variedade de fatores externos e internos.
Portanto, compreender como o nosso cérebro aprende nos permite aproveitar ao máximo nosso potencial cognitivo e promover um aprendizado eficaz e duradouro em todas as áreas de nossas vidas. Ao adotar práticas saudáveis, estimulantes e eficazes, podemos fortalecer nosso cérebro e expandir nossos horizontes de conhecimento e habilidades.
FAQ — Perguntas Frequentes sobre Aprendizagem do Cérebro
1. O que realmente faz o cérebro aprender mais rápido?
A combinação de repetição, emoção e contexto. Quando algo é repetido com significado ou emoção, as sinapses se fortalecem rapidamente.
2. O cérebro pode continuar aprendendo mesmo com idade avançada?
Sim. A neuroplasticidade permanece ativa durante toda a vida. Pessoas idosas continuam formando novas conexões e até novos neurônios.
3. Como melhorar a memória de longo prazo?
Prática espaçada, sono adequado, revisão ativa, alimentação equilibrada e associação emocional são os principais fatores.
4. Estudar por muitas horas seguidas é eficaz?
Não. O cérebro aprende melhor com pausas regulares. Estudos mostram que blocos de 25–50 minutos com pausas curtas aumentam muito a retenção.
5. Emoções interferem no aprendizado?
Sim — e muito. Emoções positivas ampliam o foco e a motivação. Emoções negativas direcionam a energia para a autoproteção e prejudicam a memória.
Imagem: Freepik
Artigo originalmente pulicado em 22/03/2024 e atualizado nessa data.

Marcel Castilho é especialista em neuromarketing, neurociência, mindfulness e psicologia positiva. Além de publicitário, também é Master em PNL – Programação Neurolinguística. Como proprietário e fundador da agência de comunicação VeroCom e também da agência digital Vero Contents, estuda há mais de 30 anos o comportamento humano.


